O texto abaixo baseou-se em minha própria fala, contida no vídeo “Presença Real, Transformação Natural”.

Abordagem de transformação imposta

Uma pergunta: se você concluir que assistir aos programas normais de televisão perturba a sua elevação de consciência, você deixaria de assistir ou continuaria assistindo?

Eu disse: você concluir!

E se você concluir que comer carne é um cruel abuso aos animais, você deixaria de comer ou não?

Se você concluir que falar de uma forma agressiva prejudica a si mesmo e aos outros, você deixaria ou não de falar dessa maneira?

Se você concluir que o chamado estilo de vida mundano lhe é prejudicial ao seu processo de meditação, você vai mudar ou não esse chamado estilo de vida mundano?

Quando falo concluir, é porque a pessoa deduziu pelo que leu, pelo que assistiu, pelo que pensou, achando, então, que aquilo não é certo ou lhe é prejudicial.

Então, a pessoa pode forçar em si mesma um comportamento ou uma atitude que considera mais adequada, moldando-se a uma nova roupagem, a uma nova manifestação de si mesma.

Essa é uma das maneiras de provocar transformações, e essa é a maneira que me parece prevalente na população em geral.

Porém, observo que esse tipo de mudança normalmente não é permanente. Acontece a mudança por um tempo, depois a pessoa volta ao padrão antigo, podendo novamente retornar ao padrão supostamente ideal, e volta ao padrão antigo mais uma vez, e assim por diante.

É como se fossem pais querendo que o filho/a, que está aprendendo a andar, usasse um andador para acelerar o processo de aprendizagem. Assim, colocam a criança no andador, e ela fica em pé, deslocando-se pela casa e aparentemente andando.

Mas o andador, na verdade, retarda o processo de fortalecimento das musculaturas adequadas para que a criança ande com seus próprios pés, sem necessidade do andador.

Repetindo, o andador atrapalha o processo natural de andar sem apoios.

Essa ideia de concluir mentalmente e condenar atitudes e/ou comportamentos, procurando moldar-se dessa ou daquela maneira para atingir o que concluiu como sendo o ideal, é, para mim, como se ela estivesse andando em um andador, porque a mudança imposta não é natural, ela não veio de suas entranhas.

Dessa maneira, a pessoa, por exemplo, deixa de assistir televisão não porque ela não aguenta mais, não porque assistir não lhe é mais agradável, e sim porque ela simplesmente se força a isso obedecendo a uma imposição mental.

Abordagem de transformação natural

Mas há outra maneira de transformações serem desencadeadas, a que vem a partir do entendimento de que nossas atitudes e comportamentos são diretamente proporcionais ao nosso nível de perceptividade à realidade presente.

Nível A > comportamentos e atitudes proporcionais a A.

Nível B > comportamentos e atitudes proporcionais a B…

…Nível Z > comportamentos e atitudes proporcionais a Z.

Em outras palavras, se você quer mudar suas atitudes e comportamentos, nesta abordagem da transformação natural preocupe-se menos com eles e mais em elevar seu nível de consciência. Ou seja, mobiliza-se em sair de seu modo de ser robotizado e inconsciente, despertando o observador interno que testemunha a si mesmo e ao mundo de uma maneira silenciosa, o que significa, sem agregar pensamentos distorcivos ao que observa.

Para que esse entendimento seja completo, é importante haver uma clara distinção entre pensamento e percepção/sensação.

Pensar sobre a beleza não é o mesmo que “senti-la em seus poros”…

Pensar sobre a compaixão não é o mesmo que senti-la viva em si mesmo…

Pensar sobre a importância de determinada ação não é o mesmo que “ouvir” uma voz interna, que surge por si mesma, a qual vibra o nosso interior exaltando essa importância.

E mais, há uma relação inversa entre perceber/sentir e pensar. Assim, quando pensamos ou concluímos algo intelectualmente, estamos, na verdade, dificultando a percepção da realidade de atingir a penetratividade intensa o suficiente para desencadear uma transformação natural.

Em outras palavras, quanto mais pensamos, menos percebemos, portanto, quanto mais concluímos algo a partir de nosso intelecto, menos chances teremos de ter a percepção nua e crua da realidade. Assim, menos serão desencadeadas essa ou aquela transformação natural, que simplesmente acontecem, sem o nosso esforço, fluindo a partir da própria perceptividade, e não da intelectualidade.

A ênfase dessa abordagem da transformação natural é, então, não condenar nada e não julgar ou escolher nada intelectualmente, mas sim ficar cada vez mais com a consciência desperta, perceptiva à realidade tal qual ela é, tanto à externa quanto à interna.

Ou seja, perceber o que a pessoa está de fato sentindo naquele momento, e não o que ela “deveria” sentir.

Perceber o que ela está de fato pensando naquele momento, e não o que ela “deveria” pensar.

Perceber suas reações internas às situações da vida, as suas resistências, as suas projeções, as manifestações de seu próprio ego…

Quando nos damos conta dessas dimensões da realidade, sem querer alterá-las precipitadamente, então, essa e aquela transformação natural acontecem por si mesmas em sequência.

Por exemplo, de repente, frente às percepções profundas, alguém que era considerado um grande amigo pode ser sentido como alguém cuja companhia não lhe faz bem… E aí a transformação natural se dá, ou seja, o afastamento acontece naturalmente.

Outro exemplo, sobre comer ou não comer carne. Se a pessoa tiver uma consciência realmente penetrante a respeito de tudo envolvido em comer carne; se ela realmente enxerga profundamente; se sente aquilo em sua realidade nua e crua, sem defesas, sem desculpas, sem racionalizações, a probabilidade de ela perder a vontade de comer carne aumenta imensamente.

E mais ainda, a probabilidade de se tornar simplesmente repulsivo comer carne se torna um fato inicialmente surpreendente para a própria pessoa. Nesse caso, pode-se dizer que a transformação natural aconteceu, e foi real, e não simplesmente uma mudança de roupagem.

Mais outro exemplo: quem tem mais chances de se mobilizar com determinação a superar seus vícios, aquele que conclui intelectualmente ou mesmo que percebe superficialmente que seu vício é nefasto e quer superá-los, ou aquele que percebe em suas entranhas profundas que ele é nefasto e descobre em si mesmo um anseio gritante para superá-los? Talvez essa diferença de nível de percepção seja a diferença entre pessoas que abandonam das que não abandonam seus vícios.

Essa é uma maneira delicada de desencadear transformações naturais em nossas atitudes e ações, pois é uma maneira que, para algumas pessoas, dá margens a equívocos. Alguém pode concordar intelectualmente com essa abordagem e concluir que essa é a melhor delas.

Vejam bem, “concluir”, de novo uma conclusão intelectual, e não uma constatação vivencial. Dentro dessa conclusão, a pessoa pode decidir não provocar mais transformações forçadas, dizendo que as transformações naturais são as melhores e que devem vir de dentro. Porém, ela facilmente pode deixar de colocar energia no que de fato desencadeia transformações naturais, que é a elevação de sua própria perceptividade penetrante ao que está acontecendo externa e internamente, momento a momento.

Assim, sem colocar energia em tornar sua perceptividade mais e mais penetrante, e nisso a meditação estaria intrinsecamente incluída, então nada acontece em termos de transformações e a pessoa fica estagnada em seus velhos padrões.

E, finalmente, cuidado, não confie nesse processo de transformação natural só porque eu estou falando, porque o Osho falou ou porque qualquer outra pessoa tenha falado. Isso seria de novo uma conclusão intelectual sem nenhuma constatação pessoal.

O convite aqui é para que EXPERIMENTEMOS, sem conclusões intelectuais precipitadas, se de fato a frase abaixo é verdadeira:

PRESENÇA REAL, TRANSFORMAÇÃO NATURAL.

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